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Abril 2026

A AssinaCURA de abril chegou... e os dias mais frescos de outono pedem queijos para esquentar seus dias.

De Cássia dos Coqueiros (SP), o Frassinela é produzido com leite de vaca Jersey orgânico e receita italiana de 15 dias de maturação. Textura cremosa, acidez suave, sabor amanteigado que vão preencher seu café da manhã.
O Queijo Capital de Alagoa tem 30 dias de maturação e salinidade precisa. Para quem gosta de parmesão, este queijo tem a capacidade de trazer este sabor para o seu cotidiano e para acompanhar cervejas leves
Da D’Chèvre, em Itaverava (MG) o Alvura Negra é feito com leite de cabra. Com casca preta de cinzas de alecrim e mofo branco, é maturado em caves de pedra-sabão. Por dentro, cremoso, mineral e delicado. Quanto mais maturado em sua geladeira, mais cremoso e intenso será! Conquistou Super Ouro no Mundial Queijo Brasil 2024. Harmoniza com Sauvignon Blanc ou espumante Brut.
Do coração da Serra da Mantiqueira (MG), o GOA #9 é feito com leite cru, massa cozida e zero lactose naturalmente. Sabor limpo, levemente adocicado e fundo frutado. Colecionador de prêmios mundo afora, já garantiu duas premiações superouro e duas medalhas de prata no Mondial du Fromage, na França. Vai muito bem com Pinot Noir leve ou Chardonnay mineral.
A La Popote imigrou com uma receita francesa centenária de patê de fígado de pato que vai cativar os amantes de fois gras.
E da Don Cutello, de Guaporé (RS), o lombo curado de inspiração italiana e cura lenta traz leveza e frescor para sua tábua de queijos.

Conheça os queijos desta edição

Alvura Negra | D'Chèvre — Ouro Branco, MG

O carvão na casca de um queijo não é novidade na França. Por lá, essa técnica existe há séculos, especialmente na região do Loire, onde queijos de cabra cobertos de cinza fazem parte da identidade gastronômica local. O que a D’Chèvre fez foi trazer essa lógica para Ouro Branco, no interior de Minas Gerais, e reconstruí-la com o que a terra e os animais do Sítio São Francisco têm a oferecer.

O Alvura Negra é produzido com leite de cabra das próprias caprinas do sítio. A alimentação dos animais é cultivada no criatório, e o manejo evita ao máximo o uso de produtos industrializados, recorrendo à homeopatia e à fitoterapia para cuidar da saúde do rebanho. Esse cuidado com a origem reflete diretamente no leite e, consequentemente, no queijo.

A casca preta que caracteriza o Alvura Negra é formada por uma camada de carvão de alecrim do campo, sobre a qual o fungo Penicillium candidum se instala e vai amadurecendo o queijo de fora para dentro, num processo parecido com o do Brie. A maturação mínima é de 20 dias, feita em caves de pedra-sabão. Com o tempo, a textura interna vai se tornando cada vez mais cremosa e o sabor, mais pronunciado. Aos 40 dias, o queijo já é outro: mais aromático, mais intenso, com personalidade formada.

O perfil sensorial é de elegância contida. A casca escura e aveludada esconde um interior creme-amarelado, macio, que derrete com facilidade. O sabor é lácteo e delicado, com presença caprino educada e uma mineralidade sutil que remete às caves onde o queijo descansou. A fermentação enzimática utilizada no processo contribui para a cremosidade e para uma acidez mais baixa do que o esperado em queijos de cabra. Em 2024, o Alvura Negra recebeu o Super Ouro no Mundial Queijo Brasil, em São Paulo, um dos concursos mais representativos do setor no país.

Para beber junto, um Sauvignon Blanc de boa acidez funciona muito bem: suas notas herbáceas e cítricas conversam com o perfil mineral e caprino do queijo. Um Chenin Blanc seco, com textura levemente encorpada, é outra boa pedida. Em cerveja, uma Saison de fermentação alta acompanha com elegância. Para quem aprecia destilados, uma cachaça de mosto limpo, servida pura e gelada, surpreende ao lado deste queijo.

Retire da geladeira pelo menos 20 minutos antes de servir. Esse tempo faz diferença na textura e no aroma.

Frassinela | Terra Límpida — Cássia dos Coqueiros, SP

Às vezes, o melhor caminho para entender um queijo é conhecer de onde ele vem. A Terra Límpida fica em Cássia dos Coqueiros, no interior de São Paulo, a cerca de mil metros de altitude. O sítio nasceu em 2014 a partir de um projeto italiano com raízes em San Gimignano, na Toscana, onde a mesma família mantinha uma fazenda orgânica desde 1988. Quando chegaram ao Brasil, trouxeram junto as receitas, a técnica e o mesmo compromisso com a natureza.

Toda a produção é feita com leite de vacas Jersey da própria fazenda. A propriedade tem certificação orgânica e certificação de bem-estar animal, o que significa que cada etapa do processo, do pasto à queijaria, é auditada e documentada. O resultado é um leite de qualidade consistente, com alto teor de gordura e sabor naturalmente adocicado, características da raça Jersey.

O Frassinela é um queijo de inspiração italiana, com 15 dias de maturação e perfil suave. A casca lisa e amarelo-palha traz uma textura favorável, e o interior cremoso apresenta uma acidez láctica discreta, próxima à do iogurte natural. O sabor é adocicado, com notas de manteiga fresca e um frescor que reflete a pastagem de altitude onde as vacas são criadas. É um queijo de entrada acessível e muito versátil na mesa.

Para quem está começando a explorar queijos artesanais, o Frassinela é uma porta generosa. Para quem já conhece, é um lembrete de que qualidade de leite e processo cuidadoso produzem resultado sem precisar de complexidade excessiva.

Na harmonização com vinhos, indicamos um Chardonnay sem passagem por madeira, de acidez viva e perfil mineral, que limpa o paladar a cada fatia. Um espumante Brut também funciona muito bem: a efervescência corta a gordura do queijo e ressalta o frescor lácteo. Em cerveja, uma Weiss bávara, com notas de trigo, banana e cravo, dialoga com a textura sedosa. Quem gosta de um aperitivo diferente pode experimentar um gin botânico com tônica seca ao lado deste queijo.

Sirva em temperatura ambiente, com pão de fermentação natural e um fio de mel escuro. Simples e certeiro.

GOA #9 | Fazenda da Lage — Aiuruoca, MG

Aiuruoca é uma cidade pequena no sul de Minas Gerais, encravada na Serra da Mantiqueira a cerca de 1.200 metros de altitude. O frio das montanhas, o leite das pastagens de altitude e o tempo generoso de cura criaram as condições para que Guilherme Maciel desenvolvesse, a partir de 2016, um queijo tipo parmesão com identidade própria. Esse queijo é o GOA, cujo nome é inspirado na ilha indiana de mesmo nome, onde culturas diferentes se encontram e criam algo novo.

O leite utilizado é cru, produzido pelas próprias vacas da Fazenda da Lage, de raças girolanda e holandesa criadas em pasto. A massa é semi-cozida e passa por um processo criterioso de salga, secagem e cura. O #9 refere-se à versão com 30 dias de maturação, o ponto mais jovem da linha, onde o queijo ainda apresenta textura com alguma elasticidade e sabor mais acessível do que nos lotes de maior cura.

Vale entender o que acontece com a lactose nesse tipo de queijo: durante a maturação, as bactérias lácticas consomem o açúcar do leite naturalmente, o que torna o GOA #9 um queijo zero lactose sem qualquer adição de enzimas industriais. Esse processo ocorre de forma espontânea e é uma das razões pelas quais queijos curados tendem a ser mais tolerados por pessoas com sensibilidade à lactose.

O sabor do GOA #9 é limpo, com notas lácticas, leve adocicado e um fundo amanteigado de altitude. O aroma é equilibrado e o queijo é bastante versátil: pode ser consumido puro em lâminas finas ou quebrado em pedaços, ralado sobre massas ou incorporado a pratos quentes. O reconhecimento internacional confirma a qualidade da Fazenda da Lage: Super Ouro no Mundial do Queijo Brasil em 2022 e em 2024, e Prata no Mondial du Fromage de Tours, na França, em 2023 e em 2025. O Mondial du Fromage é um dos concursos europeus mais tradicionais dedicados a queijos artesanais de leite cru.

Para harmonizar, um Pinot Noir leve, com taninos delicados e fruta fresca, é o par mais elegante. Um Chardonnay com discreta passagem por madeira também funciona muito bem, espelhando a textura do queijo. Em cerveja, uma IPA de amargor presente mas não agressivo trabalha bem com a mineralidade do GOA. Para destilados, um whisky de malte levemente defumado com um cubo de gelo fecha a experiência com precisão.

Alagoa Capital | Queijo Capital — Alagoa, MG (30 dias)

Alagoa é um município pequeno no sul de Minas Gerais que carrega uma história curiosa: há mais de cem anos, um imigrante italiano se instalou naquelas terras frias da Mantiqueira e começou a produzir queijo seguindo a receita do Parmigiano Reggiano. A técnica foi sendo passada de geração em geração, de família para família, até que a cidade se tornasse referência nacional em queijo tipo parmesão artesanal.

A Queijo Capital é parte dessa história. A família Martins produz queijo em Alagoa há décadas, e Lourenço Martins, hoje com 61 anos, é o caçula de 14 irmãos, quase todos produtores. O leite vem das próprias vacas do sítio, criadas em pastagem nativa da Mantiqueira. No inverno, quando o pasto escasseia, a alimentação é complementada com silagem de milho produzida em propriedades parceiras da região. Um ciclo que permanece local e controlado.

O Alagoa Capital de 30 dias é o queijo jovem da linha. A massa é de leite cru, semi-cozida e prensada, e nesse ponto de maturação a casca já está se firmando enquanto o interior ainda guarda umidade, o que resulta em uma textura mais elástica e um sabor menos concentrado do que nas versões mais curadas. É um bom momento para perceber a estrutura do queijo antes que o tempo a transforme.

O sabor é limpo e direto: notas lácticas, manteiga levemente tostada, acidez equilibrada e salinidade bem calibrada. O aroma carrega a altitude da Mantiqueira, aquela presença de ar frio e pastagem que é difícil de descrever mas fácil de reconhecer. Com o tempo na geladeira, o queijo vai evoluindo e ganhando complexidade a cada dia.

Para harmonizar, um Malbec argentino de média estrutura é um par natural: seus taninos maduros e notas de ameixa encontram na gordura e na salinidade do queijo um equilíbrio satisfatório. Um Chardonnay mineral e de boa acidez é a alternativa branca, realçando o perfil lácteo sem disputar espaço com o sal. Em cerveja, uma Porter ou Stout suave dialoga com o fundo tostado da massa. Para uma harmonização genuinamente brasileira, uma cachaça envelhecida em carvalho, com notas de baunilha e caramelo, cumpre muito bem esse papel.

Sirva em temperatura ambiente, fatiado, ralado grosso ou simplesmente quebrado à mão sobre a tábua.

Patê de Fígado de Pato | La Popote — Biguaçu, SC

Patê de fígado de pato é um dos produtos mais emblemáticos da charcutaria francesa. Em regiões do sudoeste da França, onde a criação de pato faz parte da cultura alimentar há séculos, preparar e conservar as diferentes partes do animal é quase uma obrigação doméstica. Foi nesse contexto que a família de Émilie Luquet desenvolveu suas receitas, passadas de geração em geração.

Émilie saiu da França com essas receitas na bagagem e se instalou em Biguaçu, no litoral de Santa Catarina, onde fundou a La Popote. A proposta é direta: técnicas e fórmulas francesas tradicionais, com matéria-prima 100% brasileira, vinda de pequenos produtores parceiros. A linha de patês é produzida sem conservantes e sem nitratos, e passa por um processo de esterilização que garante segurança sem abrir mão do sabor.

O patê de fígado de pato que compõe a caixa de abril é produzido com toucinho suíno, fígado de pato a 24%, leite, ovos, vinho do Porto, sal e pimenta. Cada ingrediente tem um papel claro: o toucinho fornece a base gordurosa que dá corpo ao patê; o fígado traz sabor profundo e cor escura; o vinho do Porto acrescenta uma doçura discreta e complexidade aromática; os ovos e o leite contribuem para a textura aveludada.

O resultado é um patê de consistência densa, que se espalha com facilidade e derrete na boca. O sabor é rico, com notas ferrosas do fígado equilibradas pela gordura e pelo toque adocicado do Porto. Não é um produto para quem busca suavidade: é intenso, presente, e pede companhia à altura.

Sirva entre 10 e 14 graus, em fatias generosas de pão de fermentação natural levemente tostado. Na tábua de abril, funciona muito bem ao lado do Alvura Negra, onde a cremosidade caprino-mineral do queijo equilibra a riqueza do patê. Com o GOA #9, a salinidade do queijo faz o mesmo trabalho com precisão. Para beber, um espumante rosé Brut é o par mais acessível e eficiente. Quem quiser ir na harmonização clássica francesa pode explorar um vinho de colheita tardia, cuja doçura residual dialoga com o fígado de forma precisa.

Lombo Curado | Don Cutello — Guaporé, RS

Guaporé é uma cidade do nordeste gaúcho com forte herança italiana. Foi justamente nesse contexto cultural que Ezequiel Cavasin e Patrícia Teochi Brezolin decidiram abrir a Don Cutello, uma agroindústria familiar dedicada à produção de embutidos de inspiração italiana feitos de forma artesanal. A ideia não era simplesmente fabricar frios: era resgatar uma forma de fazer que respeita o tempo, os ingredientes e o processo.

O lombo curado é um dos produtos mais nobres da charcutaria suína. Diferente de embutidos que passam por moagem ou mistura, o lombo curado é uma peça inteira de carne, o que exige seleção criteriosa da matéria-prima desde o início. Na Don Cutello, a peça passa por cura a seco com sal e especiarias de referência italiana, um processo em que os temperos são aplicados diretamente sobre a carne e deixados agir por dias antes de o produto ir para a câmara de maturação.

É importante entender o que acontece durante a cura: o sal desidrata a carne de forma controlada, concentrando os sabores e criando um ambiente desfavorável para o desenvolvimento de microrganismos indesejáveis. Com o tempo, as enzimas naturais da carne entram em ação e desenvolvem aromas e texturas que não existem no produto fresco. Esse processo, feito em condições controladas de temperatura e umidade, é o que transforma um lombo comum em um produto de charcutaria.

O resultado é uma peça de cor rosada intensa, com bordas levemente escurecidas pelo processo de cura. O fatiamento fino revela uma textura firme e levemente elástica. O sabor é suave para os padrões dos embutidos curados: notas de ervas, pimenta branca e um fundo adocicado característico do corte magro.

Na tábua de abril, o lombo cumpre um papel de ancoragem. Ele dá corpo e presença entre os queijos de pasta mole e o patê, e funciona como base para várias combinações dentro da própria caixa: dobrado sobre o Frassinela, em pedaço junto ao GOA, ou como suporte para o patê da La Popote. Fatie fino e sirva em temperatura ambiente.

Bruschetta com GOA #9 ralado, lombo curado e mel de laranjeira

Uma receita simples, que usa três elementos da caixa de abril para criar um aperitivo completo. O GOA #9 derrete levemente sobre o pão quente e cria uma base salgada e amanteigada. O lombo curado adiciona textura e presença. O mel fecha com doçura e equilibra o conjunto.

Ingredientes (para 4 pessoas)

4 fatias grossas de pão de fermentação natural ou ciabatta

80g de GOA #9 ralado grosso

6 a 8 fatias finas de lombo curado Don Cutello

2 colheres de sopa de mel de laranjeira ou outro mel floral suave

Azeite extravirgem a gosto

Pimenta-do-reino moída na hora

Preparo

    1. Aqueça o forno a 200°C. Disponha as fatias de pão em uma assadeira, regue com azeite e leve ao forno por 8 a 10 minutos, até ficarem crocantes por fora e macias por dentro.
    2. Retire do forno e distribua o GOA #9 ralado sobre cada fatia ainda quente. O calor do pão vai amolecer levemente o queijo sem derretê-lo completamente.
    3. Disponha as fatias de lombo curado por cima, sem pressa, deixando dobras naturais para que o fatiamento não fique plano.
    4. Finalize com um fio de mel e uma virada de pimenta-do-reino.
    5. Sirva imediatamente, enquanto o pão ainda está quente e o queijo levemente macio.

Dica: Se quiser uma versão mais rápida, use uma frigideira antiaderente no lugar do forno. Torre o pão dos dois lados com um fio de azeite, monte na hora e sirva.

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