Maio 2026
A AssinaCURA de maio chegou... e desta vez ela percorre o mapa mineiro de ponta a ponta, reunindo queijos de origens muito distintas numa única caixa.
Do Rancho Maranata, em Virgínia, nas terras altas da Mantiqueira, o Maranata Ouro é produzido com leite cru e maturado por 270 dias, o que resulta numa massa dura, quebradiça, com cristais de tirosina e um sabor predominantemente frutado e um final picante persistente. Premiado em diversos concursos pelo Brasil, sugerimos harmonizá-lo com Malbec ou Syrah.
De Joaíma, no Vale do Jequitinhonha, o Queijo Cabacinha de seu José Alves é feito com leite cru e moldado à mão no formato característico de cabaça, o processo de massa filada resulta num queijo de textura elástica, sabor suave e identidade única. Patrimônio Cultural e Imaterial de Minas Gerais desde 2023 e premiado com Ouro no Prêmio Queijo Brasil, é um dos queijos mais emblemáticos do norte de Minas.
Da Queijaria Di Capre, em Itanhandu, na Serra da Mantiqueira, o queijo tipo feta é produzido com leite de cabra e maturado em salmoura, o que lhe confere textura quebradiça e sabor levemente salgado com acidez acessível. Versátil e elegante, vai muito bem puro, em saladas ou marinado com azeite e ervas. É um dos ingredientes de uma das saladas mais famosas do mundo: a salada grega.
De Sacramento, no Triângulo Mineiro, o Mix JM da produtora Marlucy reúne numa única embalagem três expressões do mesmo leite cru: o Tradicional, o Limão e o Defumado, cada um revelando o que o processo é capaz de transformar um único queijo em experiências absolutamente distintas.
Para acompanhar, o Molho de Jabuticaba com Mostarda da Sabarabuçu, produzido de forma artesanal em Sabará, combina a doçura natural da jabuticaba com a mostarda para criar um molho agridoce, sem glúten e sem lactose, que complementa com precisão praticamente tudo na tábua.
E para encerrar, a Bala de Doce de Leite da Lattô, produzida em Lavras com apenas leite e açúcar no fogo lento, entrega uma casquinha crocante por fora e um recheio cremoso por dentro. O jeito mais mineiro possível de fechar uma degustação.
Conheça os queijos desta edição
Maranata Ouro | Rancho Maranata — Virgínia, MG (270 dias)
Nove meses é o tempo que o Maranata Ouro precisa para se tornar o que é. Não é uma escolha arbitrária: é o tempo necessário para que as transformações químicas e enzimáticas dentro da massa atinjam um ponto de complexidade que nenhum atalho consegue reproduzir. O Rancho Maranata, em Virgínia, no coração da Serra da Mantiqueira, é o lugar onde esse processo acontece.
Henrique, o produtor, cresceu em Virgínia, foi embora ainda jovem, viveu por 24 anos em diferentes cidades e estados, e decidiu voltar em 2017. Neto de produtor de leite e filho de queijeiro, o retorno às origens veio junto com a decisão de fazer queijo da forma que acreditava ser a certa: leite cru das próprias vacas girolandas, pequenos lotes diários feitos à mão, e maturação sem compromisso com o tempo.
O Maranata Ouro é um queijo de massa cozida e prensada, inspirado nos grandes queijos duros italianos, mas com identidade formada pelo terroir da Mantiqueira, região com indicação geográfica protegida por lei. A altitude, o clima, a pastagem nativa, a água e os minerais do solo imprimem no leite características que não se reproduzem em outro lugar.
Com 270 dias de maturação, o queijo desenvolve textura dura e quebradiça, com cristais de tirosina visíveis na massa — um sinal claro de maturação avançada e leite de qualidade. O sabor é complexo e intenso: notas acastanhadas, amadeiradas, levemente frutadas e um final picante que persiste na boca. O sal está presente e bem integrado. O aroma é potente e agradável, característico de queijos de longa cura.
Medalha de Ouro no Mundial de Queijo do Brasil em 2022 e Prata no Prêmio Queijo Brasil em 2023 confirmam o que a maturação já diz por si só.
Para harmonizar, um Malbec ou Syrah de boa estrutura são os pares mais naturais para a intensidade do Ouro. Taninos maduros e frutas escuras contrapõem com precisão o sabor picante e complexo do queijo. Em destilados, um whisky de malte com boa defumação ou uma cachaça envelhecida em carvalho fecham muito bem. Na tábua, sirva em lâminas finas ou quebrado em pedaços irregulares para valorizar os cristais. Acompanha muito bem mel escuro, damasco seco ou castanhas.
Queijo Cabacinha | José Alves dos Santos — Joaíma, MG
O Queijo Cabacinha é um dos produtos mais singulares da queijaria mineira. Sua forma, que imita a silhueta de uma cabaça, não é decorativa: é o resultado direto do processo de moldagem manual, em que o queijeiro trabalha a massa aquecida com as mãos até dar a ela o formato característico. Essa técnica é passada de geração em geração no Vale do Jequitinhonha e Mucuri, e em 2023 foi reconhecida pelo Governo de Minas Gerais como Patrimônio Cultural e Imaterial do estado.
José Alves dos Santos, mais conhecido como Juscelino, é sergipano de origem, mas chegou a Joaíma, no nordeste de Minas, em 2001, seguindo os passos dos pais. Na Fazenda Terra Estranha, aprendeu o modo de fazer local e foi aprimorando sua produção ao longo dos anos. Em 2025, sua queijaria se tornou a primeira em todo o estado a obter o registro de inspeção sanitária para comercializar o Queijo Artesanal Cabacinha do Vale do Jequitinhonha, uma conquista histórica para ele e para todos os produtores da região.
Tecnicamente, o Cabacinha é um queijo de leite cru, com massa submetida a aquecimento e posterior moldagem manual. Esse processo de aquecimento da massa diferencia o Cabacinha do Queijo Minas Artesanal tradicional e é o que permite a moldagem em formato de cabaça. A textura resultante é elástica e macia, com características que lembram a mussarela, mas com sabor mais encorpado e identidade própria.
O perfil sensorial é suave e lácteo, com uma elasticidade que convida ao consumo direto. O Cabacinha pode ser comido puro, derretido sobre pão ou frito em fatias, onde ganha uma casca dourada e um interior cremoso que é difícil de resistir. Medalha de Ouro no Prêmio Queijo Brasil 2023 coroou um produto que já era referência antes do reconhecimento oficial.
Para harmonizar, cervejas de trigo de boa efervescência são uma escolha leve e refrescante. Em vinho, um Rosé seco de acidez viva e frutas vermelhas frescas acompanha sem sobrepor. O Cabacinha também vai muito bem com cachaça jovem de mosto limpo, servida gelada. Se for derreter ou fritar, experimente ao lado do molho de jabuticaba com mostarda da caixa.
Queijo Tipo Feta | Queijaria Di Capre — Itanhandu, MG
O queijo tipo Feta tem origem na Grécia e é um dos mais antigos e consumidos do mundo. Sua identidade é definida por três características: leite de cabra ou ovelha, massa dessorada e prensada em blocos, e maturação em salmoura, que confere ao produto sua salinidade característica e a textura quebradiça. Na Di Capre, essa receita encontrou um novo endereço: Itanhandu, no sul de Minas Gerais, a mil metros de altitude na Serra da Mantiqueira.
A queijaria é conduzida por Júlio César e Iracema. A história começa antes do queijo: durante quatro anos, o casal fornecia leite de cabra para laticínios da região de São Paulo. Em 2020, com o crescimento do rebanho, decidiram transformar a matéria-prima em produto final, dando origem à Di Capre. Hoje, com cerca de 180 cabras e produção de aproximadamente 400 litros de leite por dia, a queijaria mantém um portfólio de mais de vinte tipos de queijo, todos de leite 100% caprino.
O Feta Di Capre é produzido com leite pasteurizado de cabra da própria fazenda. A massa é formada por coagulação, corte, dessoragem e prensagem em blocos, que então passam por maturação em salmoura. Esse processo de cura em sal é o que define a textura quebradiça e a salinidade do produto. O resultado é um queijo de consistência firme, que se parte com facilidade ao toque, de cor branca e aroma suave.
O sabor é levemente salgado, com a acidez característica dos queijos caprinos, mas em grau acessível. Não tem o impacto caprino pronunciado dos queijos mais maturados, o que o torna uma boa porta de entrada para quem está começando a explorar queijos de cabra. Em 2023, o Feta Di Capre recebeu Prata no Prêmio Queijo Brasil.
Para harmonizar, um vinho branco de uva Assyrtiko, originária da Grécia, seria o par perfeito pela simetria de origem e pelo perfil mineral e salino. Como alternativa mais acessível, qualquer Sauvignon Blanc de boa acidez funciona muito bem. Em cerveja, uma Witbier de trigo com notas cítricas dialoga bem com a salinidade do queijo. O Feta é muito versátil na cozinha: vai em saladas com tomate e pepino, em pastas, sobre legumes assados ou simplesmente com um fio de azeite e ervas.
Queijo JM | Sacramento, MG — Microrregião de Araxá (Mix: Tradicional, Limão e Defumado)
Sacramento fica no Triângulo Mineiro, numa região de solos férteis e água abundante que historicamente produz um dos Queijos Minas Artesanais mais reconhecidos do estado. A microrregião de Araxá, da qual Sacramento faz parte, foi uma das primeiras a ter o modo de fazer do queijo artesanal certificado e reconhecido pelo Instituto Mineiro de Agropecuária. É nesse contexto que nasce o Queijo JM, produzido por Marlucy Cândida da Cunha, que em 2022 ficou em segundo lugar no Concurso Regional de Queijo Minas Artesanal da microrregião de Araxá.
O queijo artesanal de Sacramento tem características bem definidas pelo seu terroir: casca fina e amarelada, massa compacta com textura que vai de semidura a macia conforme a maturação avança, e sabor suavemente ácido com fundo lácteo. É um queijo de presença equilibrada, sem excessos, feito com leite cru e fermento natural, seguindo o modo de fazer tradicional da região.
A caixa deste mês traz um mix do Queijo JM com três versões do mesmo queijo base, o que é uma oportunidade rara de entender como um mesmo leite e uma mesma técnica se comportam quando submetidos a processos diferentes.
O Tradicional é o ponto de partida. Casca amarelo-palha, massa bem prensada, textura macia e sabor suave com notas lácticas e acidez delicada. É o queijo de Sacramento em sua expressão mais direta.
O Limão é o mesmo queijo aromatizado com raspas de limão durante a produção, que imprimem ao queijo uma nota cítrica fresca que contrasta com a gordura e a doçura da massa. O resultado é surpreendente: o limão não domina, ele ilumina. A combinação de lácteo e cítrico cria um perfil incomum e extremamente agradável, especialmente para consumo mais leve e em aperitivos.
O Defumado passa por um processo de defumação que confere ao queijo aroma suave e sabor marcante, com notas adocicadas de madeira. A casca escurecida protege a massa e concentra os aromas, transformando o Tradicional em algo de presença mais intensa e persistente.
Para harmonizar, o Tradicional pede um vinho branco encorpado ou um espumante Brut. O Limão vai bem com um Sauvignon Blanc ou uma cerveja de trigo cítrica. O Defumado pede mais estrutura: um Malbec leve ou uma cerveja do estilo Amber Ale encontram nele uma harmonização precisa.
Molho de Jabuticaba com Mostarda | Sabarabuçu — Sabará, MG
A jabuticaba é uma fruta que poucas culturas gastronômicas além da brasileira conhecem de verdade. Ela nasce diretamente no tronco e nos galhos da jabuticabeira, tem casca fina e escura, polpa branca e adocicada, e uma acidez discreta que a torna excelente para conservas, licores, geleias e molhos. Em Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, a Sabarabuçu transformou esse conhecimento em uma linha de produtos que processa mais de 40 toneladas da fruta por ano.
O Molho de Jabuticaba com Mostarda é o produto mais vendido da marca, e não é difícil entender por quê. A combinação pode parecer inusitada à primeira vista, mas faz sentido ao ser provada: a doçura e a acidez suave da jabuticaba equilibram a pungência da mostarda, resultando em um molho mais leve e menos ácido do que a mostarda tradicional. A base frutal amacia o impacto dos grãos e cria um produto com perfil agridoce, versátil e acessível.
O molho é produzido de forma artesanal, sem corantes, sem glúten e sem lactose, o que o torna adequado para diferentes perfis de consumo. Os ingredientes são jabuticaba, açúcar e sementes de mostarda, com sal para equilíbrio.
Na caixa deste mês, o molho cumpre um papel estratégico na tábua. Ao lado do Cabacinha de seu José Alves, cria uma combinação que junta a tradição do Jequitinhonha com o fruto símbolo de Sabará. Com o Maranata Ouro, a doçura frutal do molho é o contraste necessário para a intensidade do queijo de 270 dias. Com o Defumado do Mix JM, a doçura da jabuticaba encontra o sabor defumado num encontro certeiro.
Sirva em temperatura ambiente, diretamente sobre o queijo ou ao lado como acompanhamento para mergulho.
Bala de Doce de Leite | Lattô Doceria — Lavras, MG
O doce de leite é um dos produtos mais representativos da cultura alimentar mineira. Feito basicamente com dois ingredientes, leite e açúcar, sua qualidade depende quase inteiramente da qualidade do leite e do tempo que o produtor está disposto a dedicar ao processo. Na Lattô, em Lavras, no sul de Minas Gerais, esse tempo é respeitado: o doce é preparado no fogo lento, em tacho, até atingir o ponto exato.
A bala de doce de leite é o produto mais emblemático da Lattô. Por fora, uma casquinha fina e crocante que se forma naturalmente durante o processo de cristalização do açúcar. Por dentro, um recheio cremoso, denso e brilhante, com sabor intenso de leite cozido e caramelo suave. A composição é mínima: leite integral e açúcar cristal branco, sem conservantes, sem corantes, sem aditivos.
É importante entender o que acontece no processo: quando o doce de leite é preparado em fogo baixo por tempo prolongado, o açúcar da lactose passa por uma reação de caramelização chamada Reação de Maillard, que é responsável pela cor dourada e pelas notas tostadas e amendoadas que caracterizam um bom doce de leite. Quanto mais lento o processo, mais complexo o sabor. É exatamente essa paciência que diferencia o produto artesanal do industrializado.
A bala evolui com o tempo. Nos primeiros dias após a produção, tende a ser mais macia e cremosa. Com o passar dos dias, a casquinha se cristaliza ainda mais, tornando-se mais crocante. As duas fases são igualmente agradáveis, cada uma com sua própria textura.
Na tábua deste mês, a bala ocupa o lugar da doçura que fecha a experiência. Ao lado do Maranata Ouro, a doçura do caramelo contrabalança a salinidade e o picante do queijo maturado de forma precisa. Com o Limão do Mix JM, o contraste cítrico-doce é refrescante e funciona como encerramento natural da degustação.
Feta Di Capre marinado com azeite, limão e ervas, servido com pão rústico tostado
Uma receita simples, que transforma o Feta Di Capre em um aperitivo completo com poucos ingredientes. A marinada amacia levemente a textura do queijo, acrescenta camadas aromáticas e cria um produto pronto para servir diretamente da travessa.
Ingredientes (para 4 pessoas)
150g de Feta Di Capre cortado em cubos de aproximadamente 2cm
6 colheres de sopa de azeite extravirgem de boa qualidade
Raspas de 1 limão siciliano
1 dente de alho fatiado fino
1 ramo de tomilho fresco
4 a 5 grãos de pimenta-do-reino inteiros, levemente amassados
Pimenta calabresa em flocos a gosto
4 fatias grossas de pão de fermentação natural
Preparo
- Em um pote de vidro ou travessa pequena, disponha os cubos de Feta.
- Por cima, distribua o alho fatiado, as folhas de tomilho, os grãos de pimenta amassados, os flocos de calabresa e as raspas de limão.
- Cubra com o azeite e misture delicadamente para envolver todos os cubos.
- Deixe marinar por pelo menos 30 minutos em temperatura ambiente. Se quiser mais intensidade, leve à geladeira por 2 a 4 horas e retire 20 minutos antes de servir.
- Toste as fatias de pão na frigideira com um fio de azeite ou no forno a 200°C por 8 minutos.
- Sirva o Feta marinado diretamente na travessa, com o pão ao lado para mergulhar no azeite temperado.
Dica: O azeite que sobra da marinada é excelente para temperar saladas ou regar massas. Não desperdice.
