Ir para o conteúdo Pular para o rodapé

Agosto 2026

A AssinaCura de agosto chegou com quatro queijos que atravessam estágios de maturação bem diferentes: dos 14 aos 120 dias e dois acompanhamentos que provam como cebola e rapadura podem virar protagonistas numa tábua.

O Lasquinha da Fazenda Saudade, em Ibertioga, é o queijo mais jovem da seleção, feito por Tereza e Matheus. Com apenas leite cru, pingo, sal e coalho, sem nenhum atalho.

Depois vem o Sereno da Queijaria 50 de Itanhandu, pensado para o dia a dia: suave, macio e perfeito naquele lanche da tarde, sem cerimônia.

Já o tipo Taleggio, da Serra das Antas, pede um pouco mais de atenção. É um queijo de casca lavada, técnica medieval que hoje é reinterpretada em Bueno Brandão. Deixe fora da geladeira uns 30 minutos antes de servir para sentir toda a intensidade dele.

E para fechar os queijos, o Madrepérola da Velho Pitta, em Itamonte, com 120 dias de maturação. É o mais encorpado da caixa, com discretos cristais de tirosina que aparecem no corte e mostram que a cura foi bem conduzida.

Para acompanhar, a geleia de cebola, stout e mostarda das Zappa Geleias, cozida levemente na cerveja, e o molho de rapadura, que traz uma complexidade gustativa que vai do dulçor à picância.

Aproveite com calma, tire os queijos da geladeira antes de servir e monte a tábua na ordem do suave para o mais intenso.

Conheça os queijos desta edição

Lasquinha | Fazenda Saudade — Ibertioga, MG

Há uma altitude a partir da qual o queijo muda de personalidade. Na Fazenda Saudade, em Ibertioga, no Campo das Vertentes, essa cota fica acima dos mil metros, e é lá que Tereza e Mateus decidiram construir a vida depois de deixar a rotina de Brasília, em 2018.

A receita do Lasquinha segue à risca o que se entende por Queijo Minas Artesanal: leite cru, o fermento natural chamado pingo, sal e coalho, sem adição de mais nada. É esse minimalismo que deixa o terroir falar mais alto. Depois de produzido, o queijo passa por cerca de 21 dias de maturação, tempo suficiente para desenvolver uma casca fina, em tom de palha clara, que protege uma massa compacta e homogênea.

O trabalho da dupla já rendeu reconhecimento importante: medalha de ouro no III Mundial do Queijo do Brasil, em 2024, e no V Prêmio Queijo Brasil, em 2019, resultado de um cuidado técnico diário com o rebanho e com cada etapa da maturação.

Na boca, o Lasquinha entrega acidez equilibrada, notas lácteas levemente adocicadas, mas sem esquecer da salinidade que recebe destaque no sabor, e um frescor que fecha em final limpo e persistente. É um queijo elegante sem exigir esforço para ser apreciado, tanto para quem está começando a explorar o Queijo Minas Artesanal quanto para quem já conhece o estilo e busca uma versão particularmente bem executada dele.

Na harmonização, o café será a primeira lembrança que virá à cabeça, mas um espumante brut funciona bem, porque a acidez e as borbulhas equilibram a untuosidade da massa sem disputar espaço com o sabor lácteo. Um Sauvignon Blanc de acidez viva também acompanha bem, reforçando o frescor do queijo. Entre as cervejas, uma Witbier, com notas de trigo e cravo, traz uma companhia leve e cítrica. Para quem prefere destilados, uma cachaça de mosto limpo, servida gelada, é uma boa pedida ao lado do Lasquinha.

Sirva em temperatura ambiente, retirando da geladeira cerca de 20 minutos antes, acompanhado de mel, geleia de frutas cítricas ou um pão de fermentação natural.

Sereno | Queijaria Cinquenta — Itanhandu, MG

Nem todo queijo precisa ser uma ocasião especial. O Sereno, da Queijaria Cinquenta, foi pensado justamente para o oposto: para estar na mesa todos os dias, no café da manhã, no lanche da tarde ou completando qualquer refeição sem cerimônia.

A queijaria fica em Itanhandu, no sul de Minas, e nasceu do encontro de Leandro e Lu com a farta tradição queijeira da Serra da Mantiqueira. O que começou como revenda de queijos artesanais para São Paulo, ainda em 2016, se transformou, alguns anos depois, em produção própria, com loja física inaugurada em 2022.

O Sereno é feito com leite cru de vaca e pertence à família dos queijos de massa prensada não cozida, o que resulta numa textura macia e uniforme. Sua cura é curta, de cerca de 14 dias sobre tábuas de madeira, tempo suficiente para desenvolver a casca amarelada característica sem perder a suavidade que dá nome ao queijo. É um Queijo Minas Artesanal em seu estágio de meia-cura, o ponto em que a maioria das pessoas reconhece o sabor clássico do queijo mineiro.

No paladar, revela notas lácteas que remetem à manteiga fresca e um leve toque de fermentação, com um fundo discretamente amadeirado. O sal aparece na medida certa, equilibrando a suavidade geral do queijo e conferindo uma sensação agradável ao final da mordida.

Por ser um queijo versátil, o Sereno funciona tanto puro quanto derretido, e é uma ótima porta de entrada para quem está conhecendo os queijos artesanais de leite cru.

Na harmonização, um Pinot Noir leve valoriza sua suavidade sem se impor, assim como um espumante brut, cuja acidez limpa o paladar a cada mordida. Entre as cervejas, uma Blonde Ale ou uma Saison, de perfil maltado suave, acompanham bem o queijo sem competir com seus aromas discretos. Um gin tônica com boa acidez cítrica também é uma opção refrescante para quem prefere destilados.

Sirva em temperatura ambiente, com geleias de frutas vermelhas ou sobre uma torrada de pão de fermentação natural, deixando que a simplicidade do Sereno fale por si.

Tipo Taleggio | Serra das Antas — Bueno Brandão, MG

A casca lavada é uma das técnicas mais antigas da queijaria europeia, usada desde a Idade Média para conservar o excedente de leite em queijos que, segundo reza a história, chegaram a servir como moeda de troca. Foi assim que nasceu o Taleggio original, na região de Bérgamo, no norte da Itália, e é essa tradição que a Serra das Antas recria em Bueno Brandão, no sul de Minas.

A queijaria fica no Sítio Na Morada, próxima à divisa entre Minas Gerais e São Paulo, e reúne hoje mais de 50 colaboradores dedicados a uma produção que ultrapassa 30 tipos de queijos, a maioria inspirada em receitas clássicas francesas e italianas com um toque autoral. No 33º World Cheese Awards, na Espanha, seis dos sete queijos enviados pela casa voltaram premiados, o que diz bastante sobre o nível técnico da produção.

O queijo tipo Taleggio é feito com leite de vaca e passa por cerca de três semanas de maturação, período em que a casca é lavada periodicamente, prática que controla o desenvolvimento de fungos indesejados e favorece o surgimento de uma flora própria na superfície. O resultado é uma massa semimole, de cor amarela pálida, envolta por uma casca úmida e levemente pegajosa ao toque.

No paladar, o sabor é encorpado, com uma leve picância e notas frutadas, enquanto o aroma é mais pungente, típico dos queijos de casca lavada, mas sem perder o equilíbrio. É um queijo para quem já tem alguma intimidade com sabores mais intensos e quer se aventurar além dos queijos frescos ou de meia cura.

Na harmonização, um tinto encorpado como um Chianti ou um Nebbiolo jovem sustenta bem a intensidade do queijo, assim como um branco aromático, como um Gewürztraminer, cujo perfil floral contrasta de forma interessante com o fundo picante. Entre as cervejas Blond Ale, Belgian Dubbel ou Tripel são companhias clássicas para queijos de casca lavada.

Retire da geladeira cerca de 30 a 40 minutos antes de servir, para que a casca relaxe e libere seus aromas por completo, e aproveite com pães de fermentação natural, figos frescos ou nozes.

Madrepérola | Queijaria Velho Pitta — Itamonte, MG (120 dias)

Bianca Lamenha e Gustavo Pitta trocaram os escritórios da Furnas Centrais Elétricas por uma propriedade nas terras altas da Mantiqueira, em Itamonte, no sul de Minas. De lá para cá, a Queijaria Velho Pitta já reuniu dezenas de medalhas em concursos nacionais e internacionais, e batiza seus queijos como se fossem pedras preciosas, uma forma de reconhecer o valor de cada etapa do processo artesanal.

O Madrepérola é um dos queijos de maior fôlego da casa. Elaborado com leite cru de vacas criadas soltas a pasto, atravessa 120 dias de maturação, tempo em que o clima de montanha e a flora natural da região vão transformando a massa em algo bem mais denso e complexo do que o queijo jovem que lhe deu origem. É comum encontrar pequenos cristais de tirosina espalhados pelo corte, resultado da quebra lenta das proteínas do leite ao longo da cura, sinal de que a maturação foi bem conduzida, e não um defeito.

O nome remete à ideia de preciosidade que marca toda a linha da Velho Pitta. Ao corte, a massa firme revela tons que vão do marfim ao levemente amarelado, e o aroma traz notas amanteigadas somadas a um fundo mais concentrado de castanhas, típico dos queijos de longa cura. Em boca, entrega salinidade equilibrada e uma persistência longa, sem perder a elegância que caracteriza o repertório da queijaria.

Esse é um queijo pensado para quem gosta de maturação avançada. Funciona bem ralado sobre massas e risotos, mas também merece ser servido puro, em lascas finas, numa tábua de degustação mais sofisticada.

Na harmonização, um Malbec de taninos maduros acompanha bem a intensidade da massa, assim como um Chardonnay com leve passagem por madeira, que espelha a untuosidade do queijo sem se sobrepor a ela. Entre as cervejas, uma Bock ou uma Dubbel, de perfil maltado e notas amadeiradas, dialogam com o fundo de castanhas do Madrepérola. Para quem gosta de destilados, uma cachaça envelhecida em carvalho, com notas de baunilha, fecha bem a experiência.

Retire da geladeira cerca de 30 minutos antes de servir e acompanhe com nozes, frutas secas e um mel de sabor mais intenso, que vão realçar a complexidade que só 120 dias de cura conseguem construir.

Geleia de Cebola, Mostarda e Stout | Zappa Geleias

Existe uma lógica quase alquímica em cozinhar cebola dentro de cerveja: o amargor torrado da Stout se funde à doçura natural do vegetal, sem deixar que ele caramelize da forma tradicional. É essa técnica que a Zappa Geleias, produtora artesanal do Paraná, usa para criar a Geleia de Cebola, Mostarda e Stout que acompanha a seleção deste mês.

O processo é lento: a cebola cozinha em fogo baixo, mergulhada na cerveja, até absorver seu perfil torrado sem perder textura. No final, sementes de mostarda são adicionadas inteiras, trazendo uma pequena explosão de pungência a cada colherada e um contraste de textura com a maciez da geleia.

O resultado é um acompanhamento de sabor complexo, entre o doce e o levemente amargo, com um fundo picante discreto. Funciona particularmente bem ao lado de queijos duros e de maturação mais longa, como o Madrepérola, mas também tem espaço garantido em sanduíches, tábuas de frios e até como base para molhos de carne.

Uma colher generosa sobre uma fatia de queijo firme, acompanhada de um pão rústico, já é suficiente para entender por que essa combinação de cerveja e cebola conquistou tanto espaço nas tábuas de queijo mais recentes. Guarde na geladeira depois de aberta e consuma dentro de poucas semanas para aproveitar toda a textura da mostarda em grão.

Molho de Rapadura | Empório Lessa

A chef Soraya Lessa desenvolveu, em Belo Horizonte, um molho que sintetiza boa parte da culinária mineira em um único vidro. O Molho de Rapadura do Empório Lessa nasce da combinação entre rapadura, gengibre, pimenta dedo-de-moça e mostarda em grãos, com cebola, tomate, alho, mel, suco de laranja e vinagre de maçã completando a receita.

O preparo é totalmente artesanal, feito à mão e sem pressa, o que resulta numa textura densa e aveludada. No paladar, o molho equilibra o doce concentrado da rapadura com um toque picante e uma leve acidez cítrica, criando um perfil agridoce que surpreende a cada colherada.

É um acompanhamento versátil por natureza: vai bem com queijos curados e de sabor mais marcante, mas também acompanha carnes suínas, grelhados e até um dadinho de tapioca, prato típico mineiro. Quem gosta de explorar combinações inesperadas pode experimentar uma colherada sobre sorvete de creme, contraste que a própria produtora recomenda.

Nesta seleção, o molho de rapadura é uma boa companhia para os queijos de sabor mais suave, como o Sereno e o Lasquinha, trazendo um contraponto doce e picante que valoriza a delicadeza da massa. Sem glúten e sem corantes, é um produto que carrega, em cada colherada, um pouco da tradição mineira reinventada com criatividade.

Polenta Cremosa com Tipo Taleggio e Geleia de Cebola com Stout

Uma receita que reúne dois produtos da caixa deste mês: o Tipo Taleggio, pelo derretimento generoso, e a Geleia de Cebola, Mostarda e Stout, que traz o contraste agridoce ideal para equilibrar a intensidade do queijo.

Ingredientes (para 2 pessoas)

  • 1 xícara de fubá mimoso
  • 4 xícaras de água
  • 1 xícara de leite
  • 1 colher (sopa) de manteiga
  • 150g de queijo Tipo Taleggio, em cubos
  • 3 colheres (sopa) de Geleia de Cebola, Mostarda e Stout
  • Sal a gosto
  • Cebolinha picada para finalizar

Preparo

      1. Numa panela, leve a água e o leite ao fogo médio até ferver.

      2. Adicione o fubá aos poucos, em fio, mexendo sem parar para não empelotar.

      3. Abaixe o fogo e cozinhe por cerca de 25 minutos, mexendo de vez em quando, até a polenta engrossar e soltar da panela.

      4. Tempere com sal, acrescente a manteiga e misture bem.

      5. Desligue o fogo e adicione o queijo Taleggio em cubos, mexendo até derreter parcialmente, deixando alguns pedaços visíveis para textura.

      6. Sirva imediatamente, com uma colher generosa da Geleia de Cebola, Mostarda e Stout por cima.

      7. Finalize com cebolinha picada e sirva quente, direto para a mesa.

Dica: se sobrar polenta, ela endurece na geladeira e pode ser fatiada e grelhada no dia seguinte, com mais uma colherada da geleia por cima.

Ir para o topo